“Por que estou short em Via Varejo”: Renoir Vieira e um debate sobre o efeito manada na bolsa

“Por que estou short em Via Varejo”: Renoir Vieira e um debate sobre o efeito manada na bolsa

24 de julho de 2020 1 Por Renato Ojima

Para encerrar a semana dos Contrarians na Bolsa, o Coffee & Stocks de hoje entrevistou aquele que é disparado o mais polêmico de todos: Renoir Vieira, ex-gestor de family office, hoje investidor individual da bolsa. Ele é tão contrarian que, logo no início do papo, ele diz que não se considera um investidor contrarian, apenas um investidor independente que não enxerga valor em repetir aquilo que todos estão falando.

A primeira vez em que conversei com Renoir, ali no início de 2019 a convite do Thiago Salomão, foi em um almoço nos arredores da Faria Lima.

Lembro bem porque naquele momento ele estava extremamente otimista com Via Varejo, de olho no celular e mandando ordens de compra no papel em um dia que, se não me falha a memória, Via Varejo derretia na bolsa. Ele já estava comprado desde novembro do ano anterior, mas me chamou atenção o fato de ele estar comprado em Via Varejo mesmo com todo o mercado apostando na queda do papel.

De lá pra cá, o preço do papel quadruplicou até o início desse ano (Renoir já havia desfeito sua posição anteriormente), depois se dividiu por quatro e chegou a R$ 4 em meio ao coronavírus. Foi quanto, conta Renoir, ele voltou a comprar o papel e logo vendeu aos R$ 6,50. Hoje, VVAR3 negocia a R$ 20, o equivalente a 5 vezes a mínima de 2020.

Durante o papo, ele disse que não só acha que a empresa está cara, como também está “short” (apostando na queda de preço das ações) em Via Varejo. Quando perguntado sobre os motivos de estar short em uma das ações de maior torcida da bolsa, ele disparou: “A ação com a maior torcida organizada da bolsa é a Oi, nem essa posição de liderança a Via Varejo consegue”. E completou: “estamos passando por um momento de transformação econômica, especialmente no setor de varejo, e empresas que já vinham se digitalizando, como é o caso de Magazine Luiza, Mercado Livre e B2W estão mais bem posicionadas do que Via Varejo. […] se Via Varejo hoje está ganhando algum market-share, provavelmente é por que alguma ‘besteira’ [o termo usado foi mais chulo que esse] eles estão fazendo, ninguém ganha mercado só com esperança”, disparou Vieira.

Para ele, a companhia pode estar reduzindo muito os preços das mercadorias, o que impulsionaria as vendas, mas não geraria resultado. Em um ambiente tão competitivo, a empresa ainda precisa provar de onde está vindo o ganho de participação no mercado.

“O mercado acredita que a Via Varejo está barata quando comparada com suas concorrentes, mas a diferença é que ela não é considerada uma empresa digital. Então, eu não acredito que os múltiplos de preço de Via Varejo vão se expandir igual vimos com as suas concorrentes, já digitais. […] Eu não acredito, é um turnaround como outro qualquer e o preço andou muito na frente”.

Além de esperar um resultado trimestral pífio, Renoir acredita que os incentivos que a diretoria atual tem – muito similar aos que a diretoria da resseguradora IRB tinha, na visão dele – não são adequados já que eles se beneficiam diretamente no caso de uma alta de preço da ação. “O management de Via Varejo está fazendo Live, acidentalmente publicando dados dos best-sellers das categorias [episódio recente em que publicou dados de venda no Twitter] como um todo. Isso não é um acidente, é um trabalho de profissionais”.

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Outro pilar relevante na tese de Renoir é o “oba-oba” que o mercado em geral, e principalmente as pessoas físicas têm com a empresa. “Tem muita gente pouco qualificada alavancada [através de opções e termos] no papel de modo que a hora que a correção no papel vier, ela não será tranquila”.

E a partir desse ponto da conversa, Renoir faz quase que um desabafo. Para ele, toda bolha começa com uma inovação financeira, a qual é percebida pelos participantes do mercado, que também acreditam poder ficar ricos com aquilo. “Estamos vendo essa inovação financeira através das redes sociais, da gameficação da bolsa [as torcidas da bolsa], impulsionado pelos juros extremamente baixos e pela facilidade de abrir conta em corretoras. Eu tenho a racionalidade de ver o que está acontecendo e ser independente o bastante para não seguir”.

E completou: “Eu não tenho problema em perder dinheiro num short, o dinheiro que eu perder é meu e não de um cotista. O bom de ser independente, é que as pessoas só precisam dar satisfações para elas mesmas, elas não precisam comprar uma ação porque está na moda. Sempre vai ter uma oportunidade.”

Eu poderia discorrer ainda um bom tempo sobre todos os Insights gerados nesse Coffee & Stocks, mas encorajo todos os leitores a clicarem na imagem abaixo e assistirem a essa Live, que, diga-se de passagem, teve recorde de audiência: 1600 pessoas simultâneas nos assistindo.