Empresas de tecnologia se destacam na nova economia digital; ações chegam a subir até 40% no ano

Empresas de tecnologia se destacam na nova economia digital; ações chegam a subir até 40% no ano

18 de maio de 2020 0 Por Renato Ojima

SÃO PAULO – Desde que o coronavírus enclausurou boa parte da população dentro de suas casas, as ações das empresas de tecnologia que compõe a sigla FAAMG (Facebook, Apple, Amazon, Microsoft e Google) têm nadado de braçada em meio à derrocada do mercado.

No ano, até 15 de maio, enquanto o S&P 500 recua 11,4%, o Nasdaq, que reúne as chamadas “big techs” americanas, avança 0,5%, puxado pela valorização de 30,4% da Amazon e de 16,4%, da Microsoft.

Com ganhos mais modestos, mas bem acima da média do mercado, as ações da Apple sobem 4,8% em 2020, enquanto as do Facebook avançam 2,7%, e as do Google, 2,5%.

Em escalas operacionais incomparáveis, o desempenho das companhias de tecnologia que também se beneficiam das mudanças de hábito da sociedade, mas com sede fora dos Estados Unidos, não tem deixado muito a desejar ante as “big techs” do mercado americano.

Pelo contrário. Entre as empresas latinas com ações na bolsa americana, as argentinas Mercado Livre e Globant sobem 35,5% e 15,6% no ano, até 15 de maio, respectivamente, enquanto a brasileira Arco Educação tem valorização de 15,7%.

E mesmo na Bolsa brasileira, em que pese a restrição de nomes do nicho de tecnologia, há ações que têm conseguido tirar bom proveito do isolamento social. O principal exemplo é o da Locaweb, que desde seu IPO, em 5 de fevereiro, até 15 de maio, vê suas ações subirem 40%, enquanto o Ibovespa recua 33% no mesmo período.

Garimpo tecnológico

Apesar de estarem com uma performance bastante superior ao mercado como um todo, gestoras não acreditam no fim do fôlego para os papéis do nicho tão cedo.

Diante do potencial que enxerga para os ativos ao longo dos próximos anos, a IP Capital Partners aproveitou o tombo generalizado dos preços em março para aumentar as posições que já tinha nas principais empresas americanas de tecnologia, como Facebook, Google, Amazon e Netflix.

Entre os ajustes mais pontuais, a gestora comprou papéis que já monitorava – da Mastercard e do Mercado Livre – e vendeu varejistas e Booking.com.

“Como investidores de longo prazo, estamos sempre à espera de momentos como o de março, que nos permite fazer posições que gostamos a um preço razoável”, diz Carolina Barbará, responsável pela área de RI da gestora. “Esse cenário nos permitiu montar nossa carteira dos sonhos.”

A Trafalgar Investimentos também se valeu da queda de março para reforçar ainda mais a visão positiva que já tinha para o setor de tecnologia. O peso desses papéis na carteira de ações da casa aumentou de 25%, no carnaval, para os atuais 30%.

A diferença para a IP é que, por ora, o foco da Trafalgar está em empresas inovadoras latinas, como a brasileira Locaweb. “Não entramos no IPO porque o preço estava alto, mas aproveitamos a queda de março para investir na companhia”, afirma Aline Cardoso, gestora da Trafalgar.

Em 23 de março, a ação da Locaweb caiu para o piso de R$ 10,20, porém mais do que dobrou, para R$ 24,20, no dia 15 de maio. No primeiro trimestre, a empresa reportou um aumento de quase 30% em seu lucro, que somou R$ 4,4 milhões.

Um dos principais serviços da Locaweb é a construção de sites de e-commerce para pequenas varejistas, “desesperadas” no momento por novos canais de venda, observa Aline.

A Locaweb foi a única do setor que entrou recentemente na carteira do fundo de ações da Trafalgar com mandato para investir em ações globais, mas outras de perfil similar tiveram o peso reforçado, como a Arco Educação, que fez o IPO na Nasdaq em 2018.

“A Arco oferece um sistema de ensino digital mais em conta que as apostilas tradicionais, com atualização constante do conteúdo em um formato que facilita o aprendizado”, pontua Aline.

A gestora também aproveitou a queda de março para comprar mais ações da B2W, e das argentinas Mercado Livre e Globant.

Um dos pontos fortes da Globant é sua atuação junto às desenvolvedoras de games, como a EA Sports, que produz o popular Fifa Soccer, diz a gestora. “Pela experiência com a Globant, temos estudado mais a fundo o setor de jogos virtuais, inclusive nos Estados Unidos.”

Aline reconhece que, quando voltarmos a um estilo de vida mais próximo ao pré-crise, a tendência é que as ações de tecnologia percam fôlego em detrimento aos ativos que, apesar da qualidade, têm sofrido mais desde o carnaval.

De toda forma, a gestora não tem a intenção de sair dos papéis por conta disso. Eles até podem sofrer um pouco com a rotação das carteiras após o término das quarentenas, mas as perspectivas para o médio e longo prazo são bastante favoráveis, prevê a especialista. “Buscamos nos apropriar de tendências seculares.”

Resiliência na queda

De volta à Bolsa local, o chefe de renda variável da Vinci Partners, Olavo Tortelli, diz que a mudança na gestão da Totvs nos últimos anos, que privilegiou o aumento da receita recorrente, tem garantido à empresa um lugar no portfólio de dividendos da gestora desde meados de 2017.

Com seu IPO em março de 2006, a Totvs é a mais antiga empresa do setor de tecnologia da Bolsa, e tem como principal linha de negócio o software ERP (Enterprise Resource Planning). Com ele, fábricas ou varejistas gerenciam suas atividades operacionais via computação na nuvem.

Pela resiliência do negócio, a ação da Totvs cai 13% em 2020, até 15 de maio, bem menos que o recuo de 33% do Ibovespa.

Além de se defender na baixa, o papel também sobe mais rápido na alta, observa Tortelli. Em 2019, quando o principal índice da Bolsa avançou 31,5%, as ações da empresa saltaram 140%.

Por ter mais que dobrado de preço, o ativo ganhou espaço na carteira de ações da Vinci, posteriormente diluído por bancos e mineradoras, sem prejuízo à visão positiva do gestor para o papel.

“Na recuperação, a performance superior da Totvs na comparação com o mercado deve se repetir, mesmo caindo menos na crise”, diz Tortelli.

Daniel Utsch, gestor de renda variável da Fator Administração de Recursos, lembra que o aumento do home office forçou as empresas a buscarem estruturas mais robustas de TI, e avalia que sistemas ERP tendem a ganhar importância nesse cenário.

Por outro lado, lembra o gestor, parte significativa da base de clientes da Totvs é composta por indústrias de médio porte. “A empresa tem o copo meio cheio pelo serviço que presta, mas meio vazio pela pancada na economia.”

O gestor manteve posições na Totvs no portfólio nos últimos anos, mas, para capturar a tendência digital, tem dado preferência a empresas de e-commerce como a B2W.

Exageros do mercado

Na Exploritas, o gestor Victor Alcalay manteve até o ano passado posições na Totvs e na concorrente Linx, que também vende o sistema ERP. O maior foco da Totvs recai sobre as indústrias e o da Linx, sobre o varejo.

Pela alta de 2019, Alcalay embolsou o lucro com a Totvs. Já a Linx, que avançou 9,2% no ano passado, teve o peso reduzido, mas não zerado. “Vemos potencial na área de meios de pagamento, além das plataformas de omnichannel.” Em 2020, no entanto, as ações da Linx recuam 44%.

Segundo Alcalay, tem pesado sobre o papel a expectativa do mercado de que o balanço do primeiro trimestre, a ser divulgado em 8 de junho, pode mostrar uma piora nos resultados.

Muitos dos clientes da Linx, contudo, são grandes empresas do varejo, mais resilientes, defende o gestor. “O mercado exagerou no tamanho da queda, não acho justificável uma desvalorização de quase 50%.”

Impacto indireto

Na 4UM Investimentos, além de tirar proveito das novas tendências com a certificadora digital Valid, o diretor de gestão Giuliano Dedini tem buscado capturar o aumento das ferramentas virtuais indiretamente.

Para isso, tem posições na Log-In e na Kepler Weber. “A Log-In deve se beneficiar do crescimento do e-commerce, pelos galpões e centros de distribuição em regiões estratégicas, onde a concorrência é baixa.” Apesar do prognóstico favorável, o mercado ainda não refletiu a nova dinâmica no preço das ações da empresa, que recuam 45% no ano.

Já a Kepler Weber vê seus papéis caírem “apenas” 7,5% no período. A evolução tecnológica incorporada pela produção agrícola vai se refletir em aumento da demanda pelos silos de armazenagem da companhia, prevê Dedini. “Cerca de 90% da produção agrícola nacional passa em algum momento pela empresa.”

Por outro lado, Luiz Fernando Missagia, da ACE Capital, reduziu a exposição ao segmento imobiliário ao identificar a tendência de menor ocupação de espaços físicos com a popularização do home office, mesmo no pós-pandemia.
“Empresas em dificuldade financeira começarão a mirar, dentro da estratégia de corte de custos, a redução do metro quadrado alugado”, diz o gestor.

“Tendências que levariam dois anos para se consolidar estão sendo antecipadas em dois meses”, afirma Missagia, que cita como exemplo na carteira a Via Varejo, que dobou as vendas online para 40% desde o carnaval.

Gestão ativa no Nasdaq

Ao mesmo tempo em que tirou incorporadas e construtoras do portfólio, o gestor da ACE optou por uma posição indexada no Nasdaq no mês de março. “Não entramos no melhor preço, mas foi em um bom nível.” No entanto, a casa já está em fase de estruturação de um novo veículo que vai lhe permitir fazer a gestão ativa de papéis americanos.

Isso porque, após o Nasdaq subir 15,4% em abril, revertendo o desempenho acumulado no ano de queda para uma alta de 0,5%, até 15 de maio, Missagia demonstra alguma apreensão com o nível dos preços da bolsa americana. Especialmente pela concentração da alta em poucos papéis, de tecnologia e de saúde. “Quando iniciarmos a análise individual de nomes na Nasdaq, vamos focar nos que ficaram para trás.”

Fora da realidade

O gestor da ACE não está sozinho em sua visão cautelosa para as ações americanas. O fundo Verde, de Luis Stuhlberger, reduziu marginalmente a exposição à região em abril.

E não são apenas os gestores locais que estão inseguros com o desempenho das bolsas dos Estados Unidos no curto prazo. O Goldman Sachs prevê uma queda de quase 20% do S&P 500 até agosto.

“As ações de crescimento estão precificadas fora da realidade”, afirma Otavio Costa, gestor da Crescat Capital, casa com cerca de US$ 200 milhões sob gestão sediada no Colorado, nos Estados Unidos.

Costa está comprado em ouro e mineradoras, e vendido em ações de tecnologia, bancos e usinas elétricas. Sua avaliação é a de que o potencial de alta das techs já está no preço.

“Empresas de tecnologia estão sendo negociadas a 60 vezes a receita anual”, diz. Entre as mineradoras, afirma o especialista, algumas negociam a três vezes o fluxo de caixa. “A divergência de múltiplos é imensa, e aí que vem a oportunidade.”

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