Carry trade em moedas emergentes pode ter mais perdas à frente

Carry trade em moedas emergentes pode ter mais perdas à frente

30 de junho de 2020 0 Por Renato Ojima

(Bloomberg) — A pandemia de coronavírus eliminou uma década de ganhos de carry trade para os mercados emergentes e mais perdas podem estar a caminho.

O declínio dos yields devido aos estímulos dos bancos centrais reduziu a atratividade de muitas moedas emergentes, diminuindo o fascínio do carry trade dessas divisas, de acordo com a TD Securities. As moedas dos países em desenvolvimento permanecem vulneráveis a mais perdas devido a fluxos irregulares e elevada volatilidade, afirma o Bank of America.

“O ambiente para carry provavelmente se tornará mais difícil nos próximos meses se, como é provável, o dólar tiver um rali em meio a um declínio no rendimento real entre muitas moedas emergentes”, disse Mitul Kotecha, estrategista sênior de mercados emergentes da TD Securities em Cingapura. “Uma abordagem mais seletiva de moedas emergentes provavelmente funcionaria melhor no segundo semestre”

O índice que mede os retornos de empréstimos em dólares e investimento em oito moedas emergentes de alto rendimento, incluindo o real brasileiro e a rupia da Indonésia caiu 16% desde o início do ano, atingindo em abril o menor nível em mais de 10 anos, segundo dados compilados pela Bloomberg. O indicador reduziu algumas perdas até maio, mas a recuperação parou agora, deixando-o em -11% no ano.

Carry trade é um termômetro do sentimento de apetite ao risco, e a previsão de mais perdas contribui para evidenciar que a recuperação global da economia desde a pandemia de coronavírus estará longe de seguir uma linha reta de continuidade. A interrupção da melhora no índice de carry trade também reflete os danos à confiança causados pelo aumento dos déficits fiscais e pelas renovadas tensões EUA-China.

Dólar em debate

A moeda dos EUA provavelmente retomará sua trajetória de valorização nos próximos meses, adicionando outro desafio para os investidores que buscam usá-la como financiamento para carry trade, disse Kotecha da TD Securities.

Mas as perspectivas para o carry trade não são totalmente ruins.

Alguns fatores sugerem que o dólar enfrentará crescentes ventos contrários, incluindo a redução dos diferenciais das taxas de juros, disse Stuart Ritson, gestor de fundos de renda fixa de mercados emergentes da Aviva Investors, em Cingapura.

“O cenário macro tem o potencial de favorecer as operações de carry trade em emergentes, à medida que o crescimento se recupere e os formuladores de políticas globais continuem diminuindo a volatilidade”, disse ele. “Carry trade não precisa necessariamente de um dólar americano mais fraco. Um período de estabilidade poderia ser suficiente para que essa estratégia funcionasse, mas os maiores retornos seriam obtidos com uma tendência de baixa do dólar.”

Os investidores ainda podem encontrar oportunidades de carry trade com apostas no peso mexicano, rublo russo e rupia da Indonésia, disse Ritson.

A alta volatilidade é um dos principais fatores a impedir que os investidores queiram apostar no carry trade – e, nesse ponto, a situação também parece desanimadora.

A volatilidade implícita é mais alta para opções de um mês do que para contratos de três meses para moedas como o real, peso mexicano e rupia da Indonésia, sugerindo que os mercados veem risco maior no curto prazo, segundo o Bank of America.

Algumas curvas de volatilidade implícita em moedas emergentes ainda estão invertidas, o que sugere que essas divisas ainda estão desancoradas e vulneráveis”, disse Claudio Piron, co-chefe da estratégia de câmbio e juros da Ásia no Bank of America, em Cingapura. Embora o pior do sell-off deste ano em carry trade com emergentes possa ter passado, “não espere um rali dramático”, disse ele.